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Conferência
"A Reforma do Estado Democrático e Senhor
Prof. Doutor Gianfranco Pasquino, É sempre com grande satisfação que a Assembleia da República abre as suas portas à sociedade civil, desta feita em mais uma iniciativa no âmbito da reflexão sobre a reforma do sistema político em Portugal. A presença de todos hoje, aqui, na bela sala do Senado, vem confirmar que não é por falta de interesse da opinião pública que o debate sobre estas temáticas não se realiza com mais frequência no nosso País. Permitam-me, por isso, em primeiro lugar, desejar as boas vindas a todos ao vetusto Palácio de São Bento. O Professor Gianfranco Pasquino, antigo Senador italiano, é um reputado especialista internacional em Ciência Política. A sua palestra de hoje, intitulada: "A Reforma do Estado Democrático e a Reforma do Parlamento", feita certamente a partir da experiência italiana, será muito útil para as tarefas que o Parlamento português tem entre mãos. Assinalo e agradeço a pronta aceitação do convite que lhe enderecei para falar na Assembleia da República. A sua presença honra-nos a todos. Estou certo que saberemos retirar o devido proveito das reflexões que nos traz. Quero igualmente agradecer, muito especialmente, à Associação Portuguesa de Ciência Política, na pessoa do seu Presidente, o Professor João Carlos Espada, e à Editora Princípia, na pessoa do Dr. Henrique Mota, entidades co-responsáveis pela deslocação do orador ao nosso País. A parceria entre a Assembleia da República e a sociedade civil para a promoção de iniciativas deste género é algo que pretendo incentivar com muita determinação enquanto ocupar as funções em que fui investido, pois entendo tratar-se de um meio privilegiado para quebrar alguns dos muros que ainda separam os eleitos que cá estão dentro, dos eleitores que estão lá fora. Minhas Senhoras e Meus Senhores: Ao contrário dos regimes não democráticos, a vitalidade dos regimes democráticos reside na sua capacidade contínua, constante e consistente de aprendizagem e de mudança. Esta afirmação é da autoria do nosso orador convidado e caracteriza o regime político vigente entre nós e em toda a União Europeia. Por minha parte, tive a possibilidade de comprovar pessoalmente a exactidão dela, confrontando a minha experiência na Ala Liberal, durante os últimos anos do Antigo Regime, com a vivência posterior à Revolução do 25 de Abril e à Constituição de 1976. A democracia é um regime político exigente, o mais exigente dos que existiram até hoje na história da humanidade. Esta sua qualidade evidencia-se em dois níveis, distintos mas complementares. Em primeiro lugar, nos cidadãos eleitores que escolhem os programas e os políticos que hão-de governar e a quem se pede uma intervenção participativa na coisa pública. Em segundo lugar, nos eleitos de quem se espera uma integral adesão ao prosseguimento do interesse público e do bem comum. É desta inter-relação elementar que depende a qualidade da democracia. Existem, depois, inúmeras outras condicionantes, mas esta liga-se à própria essência do sistema. Portanto, a eleitos e eleitores se pede algo decisivo - uma conduta sustentada em valores e convicções, onde a ética assuma um lugar primordial. A busca da excelência no cumprimento dos nossos deveres é o primeiro requisito para que a democracia possa continuar a reformar-se, adaptando-se aos novos tempos, realizando os objectivos que se propõe. Podem-se depois encontrar variadas soluções estruturais, no âmbito do Estado e do Parlamento, em cada tempo histórico; mas só a garantia do respeito por uma ética de responsabilidade poderá continuar a determinar o nosso sucesso como políticos democráticos e o sucesso da própria democracia. Quando teorizamos sobre as exigências da democracia, temos no Parlamento o alvo privilegiado de grande parte das críticas. Estas não visam em regra a essência do sistema, mas sim, a funcionalidade do mesmo. No caso português, a Assembleia da República, à semelhança do que acontece nas demais democracias parlamentares, constitui barómetro privilegiado da relação entre as expectativas dos cidadãos e as respostas da democracia. Nos últimos anos registou-se um agravamento continuado da imagem que os portugueses fazem do órgão maximamente representativo do nosso regime democrático, que é a Assembleia da República. Este facto deve-nos preocupar a todos! Os sinais mais recentes apontam, porém, para uma recuperação, que é preciso continuar a promover com o maior empenho. Na minha opinião, um dos aspectos do problema reside na errada ideia que a qualidade do Parlamento é medida pelo número de iniciativas parlamentares apresentadas e de leis delas resultantes. Se esse fosse o único indicador, então o caso português constituiria um assinalável exemplo de sucesso. Só que um Parlamento que gasta todo o seu tempo a formular, discutir, emendar e aprovar um grande número de leis, que acabam por ser, necessariamente, leis muito sectoriais, fica sem disponibilidade para dar voz a grandes debates políticos e para exercer o seu poder fiscalizador da actividade do poder executivo. Por isso, reduzir o Parlamento apenas à produção legislativa constitui a melhor garantia para facilitar e apressar o seu declínio. O Parlamento é, antes de mais, um lugar de representação política de uma sociedade complexa que tem de ser governada e que exige que as suas preferências sejam transformadas em decisões. É a sede onde se manifesta a maioria que apoia o governo, bem como a oposição crítica de controlo à actividade do Executivo. Entendo por isso que o Parlamento deve reforçar o seu papel como centro do debate político. Nele, maioria e oposição se confrontam na defesa de ideias e programas, devendo ter sempre por base uma ética de responsabilidade. A consagração prática deste objectivo envolve o compromisso empenhado de todos no esforço comum de fortalecer a dignidade e a eficácia do Parlamento e portanto a sua imagem pública. A este respeito, sobreleva hoje em dia o impacto na opinião pública da transmissão televisiva directa dos trabalhos parlamentares. Tenho recebido cartas extremamente críticas de cidadãos identificados, que interpreto como a confirmação da razoabilidade do meu apelo inicial para a adequação do discurso e das praxes parlamentares à nova era da televisão em directo. Num meio frio, como é a TV, a veemência excessiva é contraproducente. E não digamos nada dos confrontos verbais, que chegam mesmo a escandalizar alguns e desfocam o paradigma de rigor, de respeito mútuo e até de alguma solenidade, que deve ser timbre do Parlamento. A democracia parlamentar é, como defende o Professor Gianfranco Pasquino, o mais exigente dos sistemas políticos. Na reforma que debatemos actualmente em Portugal, é preciso ter sempre em mente a procura intransigente da excelência na actividade parlamentar. Para além de ser uma exigência da própria democracia, é sobretudo uma exigência dos portugueses que em nós confiaram, em eleições livres. (Palácio de São Bento, 24 de Outubro de 2002) |