Mesa redonda sobre acolhimento de imigrantes,            
nas jornadas de reflexão e debate organizadas pela            
Fundação Ajuda à Igreja que Sofre


Persistem em todo o nosso planeta desequilíbrios de desenvolvimento acentuados, desembocando em diferentes condições de vida para a população. A pulsão migratória daí derivada é enorme. As sociedades afluentes do ocidente europeu constituem focos de atracção irresistível para os deserdados dos estados do centro e leste, bem como para os pobres do Terceiro Mundo.

Não deve haver, por agora, questão mais melindrosa do que essa vaga enorme de gente, de todas as origens e condições, que rebenta com estrondo nas costas europeias. A aportação prestada pela energia dos imigrantes é benvinda por corresponder a necessidades óbvias, face à baixa natalidade no período da última geração, causadora do rápido envelhecimento dos países ricos. Mas os dramas individuais e familiares que o fenómeno implica dão-lhe uma carga de sofrimento humano insustentável.

Não é só que os imigrantes vão ocupar o último degrau da escada, em termos de profissão e instalações a eles acessíveis, porque tal corresponde às regras de jogo usuais na matéria. Já a entrada clandestina nas fronteiras ceifa um número indeterminável de vidas humanas - africanos afogados no mar revolto do estreito de Gibraltar, asiáticos asfixiados em porões ou dentro de contentores, sul-americanos gelados no trem de aterragem de aviões transatlânticos. E os que chegam ao destino, cada vez mais ficam presos nas malhas de organizações criminosas, que exploram vilmente a sua força de trabalho ou - pior ainda! - os lançam, caso das mulheres e das crianças, nos repugnantes circuitos da prostituição e da pedofilia.

Isto para não falar dos muitos que são apanhados pela polícia e recambiados, à força, para o país de origem, quando não destroem logo os documentos de identificação, sujeitando-se a um quase cancelamento da personalidade, na ânsia de um recomeço de vida menos desesperado... É estranho, mas nem por isso menos significativo, que sobre tão tristes cenas do drama tenha caído, depois da indignação inicial, uma pesada cortina de silêncio! E no entanto, um só dos países da UE, a Itália, expulsou, só num ano, à roda de oitenta mil imigrantes clandestinos; fala-se que em Espanha, na mesma altura, o número de pessoas movimentadas atingiu trinta mil - em qualquer dos casos exigindo a montagem de uma verdadeira ponte aérea, de elevado custo.

O Conselho da Europa, empenhado na defesa e promoção dos direitos humanos, acompanha atentamente o evoluir desta problemática. Fechar-se a União Europeia, que é o palco onde se desenrola a acção, sobre si própria, é impossível, para além de inconveniente e mesmo injusto. Fazer de conta que nada se está passando e deixar andar pode fazer ressurgir na Europa os demónios antigos da intolerância e do racismo.

É preciso definir quanto antes uma política de imigração europeia, aberta e generosa. A aceitação de fluxos migratórios, qualquer que seja a sua origem, exige a preparação do acolhimento, para que possa ser bem sucedida. Sem habitação condigna, haverá - há! - guetos horríveis, onde a droga, a delinquência, a exclusão social estão fazendo inúmeras vítimas entre os jovens, contribuindo para tornar a sociedade violenta e insegura. Por outro lado, os paradigmas de homogeneidade, herdados de séculos anteriores, têm de ser substituídos por referenciais próprios de uma sociedade pluri-étnica e multi-cultural. As opções de quadro de vida, feitas mais ou menos conscientemente, no termo da revolução sexual dos anos sessenta, verifica-se agora terem pesadas consequências demográficas. Um novo cadinho populacional na Europa talvez venha a ter os efeitos dinamizadores comprovados na América do Norte, cujos países continuam a ser terra de oportunidade para milhões de imigrantes de todo o mundo.

Finalmente, toda a comunidade, na pluralidade das suas instituições, tem de ser mobilizada para assumir uma atitude mental de acolhimento.

Quanto a este último ponto, a iniciativa da Fundação Ajuda à Igreja que sofre e o próprio tema da Mesa-Redonda, ajustam-se como anel ao dedo. Os organizadores e participantes devem por isso receber merecido louvor.

(Colégio de São João de Brito, Lisboa, 27 de Outubro de 2002)