Cerimónia de Entrega da Chave de Honra do Município de      
Ponta
Delgada, no dia do 457º Aniversário da Cidade

  

Senhora Presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada
Minhas Senhoras e
Meus Senhores:

Agradeço, muito reconhecido, à Presidente Berta Cabral e à Câmara Municipal de Ponta Delgada, a generosidade que me dispensaram, atribuindo-me o mais alto galardão do nosso Concelho.

Agradeço também, do fundo do coração, as simpáticas palavras com que me fizeram referência, nesta sessão solene, tanto a Senhora Presidente como o meu velho Amigo e inquebrantável companheiro de tantas lutas pela Autonomia democrática dos Açores, Alberto Romão Madruga da Costa.

Agradeço ainda a todos os presentes a estima e a solidariedade, tão expressivamente demonstradas.

Senhora Presidente
Minhas Senhoras e
Meus Senhores:

Surpreendeu-me a deliberação camarária e deixou-me deveras comovido. Os nossos tempos vertiginosos não são propícios ao reconhecimento. Vivemos a correr sempre para a frente e tornou-se até difícil parar para reflectir, mais ainda para avaliar o que já passou.

A gratidão - uma bela virtude, que aliás é parte da justiça - está caída em desuso. Talvez por isso mesmo o mérito tende a rarear. E vamo-nos conformando à cínica atitude de reduzir a actividade política, o cursus honorum dos antigos - que deveria caracterizar-se como abnegado serviço público - a uma feira de vaidades, à disputa de interesses mesquinhos.

Felizmente, nos Açores, mais concretamente, no nosso Município multicentenário, aqui, não é assim. A iniciativa da Autoridade Municipal marca a diferença, e situa-se na linha de muitas outras, destinadas a valorizar a actuação dos cidadãos e das cidadãs, nas mais diversas facetas, em benefício da cidade e do concelho de Ponta Delgada.

Não estou com isso a arvorar-me em merecedor do que quer que seja. Olhando para trás, julgo poder apenas afirmar, com a consciência tranquila, que cumpri o meu dever. As circunstâncias históricas fizeram-me deparar com oportunidades sem precedente, para afirmar e projectar a dignidade dos Açores e do Povo Açoreano, no quadro da sua identidade portuguesa, europeia e atlântica. Não teria perdão se não tivesse empenhado todas as minhas faculdades, com erros e falhanços à mistura para tirar daí todas as vantagens possíveis para a nossa terra e para a nossa gente, num serviço de evidente projecção nacional.

A fundação e consolidação da Autonomia democrática foi, de resto, uma grande tarefa colectiva, na qual tiveram um papel determinante a cidade de Ponta Delgada e a sua marca - quero referir-me, obviamente, aos seus habitantes, homens e mulheres, de todas as idades, graus de cultura e condições sociais. Sobre este ponto argumentei abundantemente, em intervenção aqui proferida, no decurso das comemorações dos 450 anos da carta régia de Dom João III.

Quanto à minha actual responsabilidade de Presidente da Assembleia da República, como Açoreano, micaelense, natural da freguesia de São José, de Ponta Delgada, gostosamente partilho honra tão grande com todos os meus concidadãos e concidadãs. Juntamente com a Família - Pais, Irmã e Irmãos, demais parentes - e com os amigos, mestres e colegas de estudo, foi este nosso meio, com as suas qualidades e defeitos, foi o ambiente da cidade e da ilha, dizia, que me moldou o carácter, ajudando-me a crescer e a fazer-me homem. Em tal constelação de pessoas e instituições me insiro e identifico; e se alguma coisa sou e tenho e valho à mesma o devo - aqui fica declarado, sem rebuço!

Cada pessoa tem as suas raízes. As minhas mergulham profundamente nesta porção de terra úbere da bela ilha de São Miguel, a segunda a ser achada e povoada no Arquipélago dos Açores. Pelo lado paterno, sou dos marais da Lagoa, provenientes aliás da Achadinha, no Nordeste e, mais remotamente, da Povoação, onde o primeiro deles terá aportado há cerca de meio milénio. Pelo lado materno, os meus avoengos situam-se, ao longo de séculos, em Santo António além Capelas e na sua vizinhança.

Eu, porem, nasci na cidade de Ponta Delgada, numa das primeiras casas da antiga Rua Formosa, já então chamada de Lisboa, a dois passos do Largo 2 de Março, paredes meias com a cerca do Convento da Esperança. Fui baptizado na velha Igreja de Nossa Senhora da Conceição, dos Franciscanos, sede da paróquia de São José e frequentei a escola primária do Campo de São Francisco, à sombra do Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres, onde bate, em prece, o coração dos naturais da Ilha do Arcanjo. Pelas ruas, praças e jardins da nossa cidade, pelo seu termo, tão variado - subindo as Fajãs e os Arrifes, dando a volta desde os Fenais da Luz, pelas Bretanhas e os Mosteiros, até à Candelária e à Relva, percorrendo as cumeeiras ou descendo ao ventre da ilha, nas margens das lagoas das Sete Cidades - e pelo mar omnipresente é que aprendi a conhecer, extasiado, a grandeza do Mundo.

Daí que me sinta tão intima e fortemente ligado à Terra natal, onde se me misturam já ossos de Pai e Mãe e onde desejo que o meu corpo descanse, quando chegar a hora (o mais tarde possível, espero, pois tanto prezo o divino dom da vida…). Insulano sou, homem da ilha, das ilhas, dos quatro costados, de corpo e alma, convicto, assumido, livre! Insulano, repito - que não insulado, limitado, isolado, antes aberto a tudo e todos, desde logo às nossas origens europeias, genéticas e culturais, partilhando o destino e a saga do Açoreano, do Português errante, levando consigo a língua e o um modo de ser, peculiar, bem sucedido, feliz e contente em qualquer parte, cidadão do Mundo, em especial, por imposição afectiva, do Novo Mundo.

Senhora Presidente
Minhas Senhoras e
Meus Senhores:

É tempo de indagar: que farei então com esta chave, da mercê agora, em sobressalto, recebida?

A Chave de Honra do Município de Ponta Delgada não encerra em beleza um percurso de vida - porque enfim, estando embora para completar 60 anos dentro de dias, não me considero ainda, para desespero de alguns, na idade da reforma… Vem sim selar uma relação de pertença, intensa e fecunda, vital, ainda muito longe de esgotar todo o seu dinamismo. Queira Deus que eu seja sempre digno de tão honrosa distinção!