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Debate



"Aplicação do Acordo Ortográfico"
 
d2013-02-06 a 2013-02-28

Regras de Participação   



A Comissão Parlamentar de Educação, Ciência e Cultura, na sequência da aprovação de um requerimento do PCP, deliberou, por unanimidade, constituir um Grupo de Trabalho para Acompanhamento da Aplicação do Acordo Ortográfico, de que fazem parte deputados dos vários Grupos Parlamentares, o qual está a ouvir várias entidades sobre esta matéria e a receber contributos escritos em relação à mesma.

Tendo em vista recolher variadas posições para reflexão, foi deliberado colocar a matéria em debate público, até ao final do dia 28 de fevereiro. Para uniformização da estrutura dos contributos e maior eficácia na sua apreciação, solicita-se que, se possível, seja utilizada a seguinte sequência:

1. Enquadramento da matéria;
2. Objetivos do Acordo Ortográfico;
3. Vantagens decorrentes da aplicação do Acordo Ortográfico;
4. Inconvenientes e problemas resultantes da aplicação do Acordo Ortográfico;
5. Proposta que apresenta;
6. Outras questões.

 

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VISUALIZAÇÃO DO CONTRIBUTO

TÍTULO Deixem-se "enredar"
DATA 2013-02-09
NOME Mário de Seabra Coelho
LOCAL Coimbra

Sou um Velho do Restelo com vinte e dois anos de idade, estudante de línguas e linguísticas na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e afirmo com toda a certeza que os afrontamentos ao Acordo Ortográfico de 1990 não o são, na sua esmagadora maioria, por aversão à mudança. Nem tudo o que é novidade é bom. A língua Portuguesa não precisava de uma revisão ortográfica. A língua mais poderosa do mundo, o Inglês, nunca necessitou de se adaptar às suas variantes, aliás, uma das razões da sua força reside exactamente no respeito pela identidade linguística de cada país anglófono. O comummente apresentado argumento da “simplificação” da língua também não passa de uma falácia. O Japonês e o Chinês dispõem de milhares de caracteres diferentes, que as crianças aprendem com a menor das dificuldades. O Inglês e o Francês, ambos línguas de força pelo mundo fora, apresentam um cariz etimológico que em nada dificulta a aprendizagem. Ao contrário do que os defensores desta reforma ortográfica querem fazer parecer, a existência de consoantes mudas (falsamente mudas, no caso do Português Europeu) em nada são um entrave à aprendizagem da língua. O Acordo Ortográfico não trouxe nenhuma vantagem a Portugal, apenas fez levantar um sentimento de ressentimento para um povo que, já alvo de tanta chacota e sofrimento, se viu obrigado a entregar a própria língua às mãos de um punhado de linguistas que não reflectem a vontade de milhões de Portugueses. Na minha faculdade são muito poucos os alunos que escrevem com o Novo Acordo, e ainda menos aqueles que concordam ou se identificam com ele. Os poucos que se convertem não o sabem utilizar, nem nunca saberão, com a quantidade absurda de duplas-grafias, excepções, e puros erros que o Novo Acordo introduziu. Outro efeito nefasto desta reforma ortográfica, mais subtil mas não menos assustador, é a perda da presença de Portugal na Internet. A dificuldade em encontrar uma webpage nacional, ou até simplesmente escrita em Português Europeu (seja esse Português com Novo Acordo ou não), é muitíssimo elevada. Pelo que até um dos argumentos iniciais a favor desta reforma, o fortalecer da presença do Português de Portugal na Internet, acabou por originar exactamente o oposto. Não é nada tarde para se voltar atrás. Se o fizer, o governo ouvirá apenas os cidadãos a suspirarem um aliviado “até que enfim”, e as crianças que por esta reforma foram lesadas aprenderão as regras correctas num período de tempo múltiplas vezes mais rápido do que a adopção do Acordo demorará. Pois, aliás, a maioria da população nem sequer se dará ao esforço de aprender as novas regras. O caminho de regresso não é difícil, difícil é caminhar em frente, contra tudo e todos, contra um povo que, de tão cansado que está, apreciaria poder voltar a ter orgulho no seu país, não sentir que à venda estão até as palavras que falam e escrevem.

 

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